RI Texto de Marijane Lisboa sobre Cultura e natureza: software e transgênicos?

Marijane Vieira Lisboa

Cultura e natureza: o que o software tem a ver com os transgênicos?

Por estranho que possa parecer a pessoas que desconhecem ambos os assuntos, ou conhecem apenas um deles, eles têm tudo a ver..
Novas e velhas tecnologias

Ambos pertencem ao campo de novas tecnologias que, chegando ao mercado no fim do século XX, conferem ao novo século uma aparência de ficção científica, deslumbrando muitos com suas novas potencialidades, e assustando outros pela velocidade das inovações. Essa mesma velocidade das inovações cava fossos tecnológicos entre gerações, desclassificando antigas competências – quem das novas gerações sabe o que é datilografia ou estenografia? – e cria novos ofícios, cujas competências sequer estão claramente definidas: que tipo de cientista é o biotecnólogo? Pode este avaliar a biossegurança das suas tecnologias? Embora a biotecnologia e a biossegurança exijam conhecimentos muito distintos, foi baseado neste equívoco que são escolhidos biotecnólogos para compor a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que, no Brasil, regulamenta a pesquisa e o uso de transgênicos. Novas tecnologias não surgem do vácuo. Apossam-se dos conhecimentos anteriores, teóricos e práticos, para daí desenvolverem suas inovações. Os transgênicos podem ser entendidos como um prolongamento da Revolução Verde, o movimento de renovação tecnológica de meados do século XX, que permitirá grandes saltos na produtividade agrícola. A Revolução Verde se caracterizou fundamentalmente pelo desenvolvimento e uso de adubação química, aplicação de agrotóxicos, irrigação, mecanização das operações e sementes melhoradas ou melhoramento genético. A ciência agronômica, por sua vez, baseou-se na prática imemorial dos povos agricultores do planeta que foram domesticando plantas encontradas na natureza de modo a melhor adaptá- las às necessidades humanas, aumentando o seu conteúdo nutricional, por exemplo, ou eliminando propriedades indesejadas como sabor amargo, dureza, entre outras. Poucos de nós temos consciência do quanto devemos aos nossos antepassados – que freqüentemente definimos como primitivos e ignorantes, embora tenham sido eles quem desenvolveram os principais cereais que são a base da nossa alimentação, como o arroz, o milho, o trigo, o feijão. O milho em particular, como Jared Diamond (2001) nos conta em seu livro Armas, germes e aço, exigiu muito mais tempo do que o trigo para ser domesticado, pois sua espiga era muito pequena e os poucos grãos, envoltos em uma película dura, de difícil descarte. Perto dos grandes desafios resolvidos por esses nossos antepassados, as nossas invenções modernas empalidecem. Certamente eles foram muito mais observadores, experimentadores e criativos do que somos na atualidade, pois cada um dos seus indivíduos enfrentou sozinho desafios muito maiores, enquanto atualmente nascemos e vivemos em uma sociedade repleta de conhecimentos acumulados e facilidades tecnológicas, com instituições e especialistas encarregados de resolver – e freqüentemente criar – todos os problemas que nos dificultam a existência.

Riscos e precaução
Esta reflexão sobre os feitos dos nossos antepassados tem como objetivo nos convidar à adoção de uma certa dose de humildade no momento em que vamos examinar as nossas maravilhosas criações científicas atuais. De fato, como insiste o filósofo Hans Jonas (2006) em seu livro O princípio responsabilidade, antes de modificar o mundo ao nosso bel prazer – tornando objeto desses experimentos, inclusive a nossa própria espécie, deveríamos nos perguntar quais seriam as consequências dessas modificações do ponto de vista espacial e temporal, pois o incrível poder que as modernas tecnologias nos conferem sobre as coisas exigiria de nós uma nova ética, a Ética da Responsabilidade. Não seria outro o fundamento ético do chamado Princípio da Precaução, princípio que deveria orientar as decisões a serem tomadas com relação a tecnologias cujos resultados negativos não possam ser claramente previstos, nem evitados. Presente em todas as convenções internacionais sobre o meio ambiente assinadas na década de 90 (MACHADO apud VARELLA; PLATIAU, 2004; RAFFENSPERGER; TICKNER, 1999), o Princípio da Precaução afirma que a ausência de evidência científica conclusiva a respeito de danos graves ao meio ambiente e à saúde humana não deveria servir de desculpa para que autoridades não adotassem medidas de precaução em relação a empreendimentos e tecnologias. A emergência desse princípio, que primeiro aparece nas legislações ambientais da Suécia e Alemanha na década de 70, corresponde a uma nova concepção ontológica que supõe a natureza complexa dos fenômenos naturais, sociais e psicológicos, a ponto de que não se possa pretender eliminar zonas cinzentas de incertezas e ignorância, aquilo que Edgar Morin (1982) tem denominado de um paradigma da complexidade. Longe, portanto, da ingenuidade cartesiana e baconiana dos primeiros tempos da Revolução Científica, a ciência contemporânea deveria adotar uma postura de cautela quando se tratasse de introduzir no mundo suas inovações tecnológicas, pois essas poderiam ter impactos graves, imprevisíveis e irreversíveis. Alguns exemplos retirados de uma longa lista de desagradáveis descobertas: os CFC (clorofluorcarbonos) inventados para serem utilizados em aparelhos de refrigeração e aerosóis, que mais tarde se revelaram culpados da depletação da camada de ozônio; a talidomida que gerou deformações físicas em bebês cujas mães tomaram esse calmante1, as bifenilas policloradas usadas nos transferidores e capacitores e que juntos com outros agrotóxicos, inseticidas e produtos químicos se revelaram cancerígenos e desruptores endócrinos; o uso intenso de combustíveis fósseis durante 200 anos, alterando drasticamente o clima da Terra; os milhares de mortos e contaminados com os testes nucleares de superfície realizados durante a Guerra Fria, Chernobil e o caso Césio 137 em Goiânia2 (a bomba de cobalto que foi parar no ferro velho), enfim, tudo aquilo que tivemos que aprender por meio de dolorosas experiências, o que faz com que o sociólogo Ulrich Beck (1986) diga que transformamos o mundo no laboratório da ciência e nós, em suas cobaias. Antigamente, segundo Beck, produtos e tecnologias eram primeiro experimentados, testados em laboratórios e só depois liberados no meio ambiente. Atualmente, invertemos a ordem. Desenvolvemos produtos ou tecnologias apenas pela metade, logo os testamos diretamente no meio ambiente e na saúde humana e animais em escala comercial, para, em seguida, caso não apareçam efeitos colaterais, continuarmos a utilizá- los! Se, pelo contrário, tais efeitos aparecem, sua produção e consumo são suprimidos, sem que ninguém assuma a culpa pelos danos causados: nem cientistas, autoridades públicas, nem empresas privadas. Por isso, a adoção do Princípio da Precaução supõe a inversão do ônus da prova. Caberia àqueles responsáveis pelo desenvolvimento da nova tecnologia, o ônus de provar que ela não trará danos graves e irreversíveis. Obviamente, não é assunto fácil definir o que sejam “danos graves e irreversíveis” e tampouco avaliar esse potencial de danos, justamente quando reconhecemos as enormes áreas cinzentas de incerteza e ignorância presentes no conhecimento científico atual. Trata-se aqui, portanto, de desenvolver metodologias que definam indicadores qualitativos e quantitativos de danos possíveis. Por exemplo, antes que fosse autorizada a liberação no meio ambiente de uma planta transgênica, deveria ser investigada a possibilidade de que genes dessa planta pudessem contaminar plantas não-transgênicas da mesma espécie, bem como os possíveis impactos negativos e positivos resultantes dessa contaminação para a conservação da biodiversidade, a segurança alimentar e a economia popular. Essa avaliação deveria ser feita, mesmo que não se possa ter certeza da magnitude desses impactos, nem das causas que levam a que eles ocorram.3

Transgenias
A liberação para produção e consumo comercial de plantas transgênicas em diversos países, inclusive o Brasil, constituem um desrespeito cabal ao Princípio da Precaução. Embora seus promotores – empresas de biotecnologia, biotecnólogos e produtores rurais aleguem que os transgênicos vêm sendo liberados no meio ambiente há mais de 15 anos sem que se tenha identificado nenhum dano ambiental ou de saúde, a verdade é que 15 anos é muito pouco para que se identifiquem tais danos, particularmente quando “esse experimento” vem sendo feito sem monitoramento científico, ou seja, sem pesquisas que permitam comparar grupos de risco com grupos de controle, examinados a partir de hipóteses previamente estabelecidas e metodologias adequadas. Pior ainda, mesmo esse experimento prático não controlado tem permitido verificar efeitos danosos, graves e provavelmente irreversíveis. A contaminação de cultivos não-transgênicos por cultivos transgênicos está se mostrando um fenômeno impossível de ser contornado, como o atestam diversos casos de contaminação involuntária na Europa, com milho e nos EUA com milho e canola4. A contaminação pode ocorrer mesmo no caso de plantas que não são de polinização cruzada, e para as quais, portanto, esse risco é muito menor, como foi o caso recente investigado pelo governo do Paraná, em que agricultores de soja orgânica e convencional tiveram seus cultivos contaminados por soja transgênica, provavelmente de seus vizinhos, plantadores de transgênicos5. Tampouco se investigou, suficientemente, a respeito dos riscos dos transgênicos em relação a insetos e animais não alvos, que são benéficos à agricultura e têm seu papel e importância no equilíbrio ecológico. Algumas pesquisas isoladas, no entanto, indicaram maior mortalidade de certos insetos, como as borboletas monarca, as joaninhas e mesmo abelhas. Os transgênicos também não foram estudados satisfatoriamente do ponto de vista da segurança de seus alimentos, tanto para seres humanos, quanto para animais. No máximo, encontramos pesquisas que se resumem a meses ou semanas, com alguns animais, investigando apenas alguns aspectos como aumento de peso. É freqüente o recurso a um pseudoconceito de “equivalência substancial”, que se afirma ter sido adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Na verdade, a OMS nunca discutiu, especificamente, a questão da biossegurança de alimentos transgênicos, nem definiu nenhuma metodologia que devesse ser aplicada para avaliar a tal “equivalência substancial”6. A espantosa verdade no que se refere aos transgênicos é que estamos sendo levados a alimentarmo-nos com alimentos não testados, quando há uma farta disponibilidade de alimentos convencionais, não transgênicos, suficientemente testados por milhares de anos de cultivo e consumo humano e animal.

O patenteamento das sementes
Mas, então, por que foram inventados os transgênicos? Foram inventados para permitir a apropriação privada dos recursos genéticos da natureza, aplicados à agricultura, à farmacéutica e à pecuária. Não é de hoje, obviamente, que o capitalismo trata de se apropriar das práticas agrícolas. Com o desenvolvimento de fertilizantes, agrotóxicos e máquinas, a agricultura tornou-se um mercado cada vez mais atrativo. Indústrias químicas e farmacêuticas foram aos poucos absorvendo esse novo mercado, fabricando agrotóxicos, como herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes químicos. A prática milenar dos povos agrícolas de melhorar as suas sementes através da sua seleção será capturada pelas novas indústrias de sementes, que irão desenvolver linhagens de sementes melhoradas, de preferência híbridas, para então vendê-las como mercadorias. A indústria de sementes enfrenta, contudo, uma barreira à sua expansão, que é a prática dos agricultores de preservarem parte dos seus grãos para serem utilizados como sementes nos próximos cultivos, continuando eles próprios a fazerem a sua seleção. As plantas transgênicas foram a solução mágica para expandir a área do mercado de sementes. A introdução de genes que expressam características específicas como resistência a determinados herbicidas, produção de toxinas que matam certos insetos predadores, maior teor de lignina ou de amido para fins industriais – foi acompanhada pela adoção de regulamentação internacional de patenteamento no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), garantindo “os direitos de propriedade intelectual” dos seus “inventores”7. Assim, cada vez que um agricultor quiser utilizar novamente aquelas sementes transgênicas, terá que comprá-las no mercado e pagar royalties às empresas que as produziram, ou como a Monsanto prefere eufemisticamente chamar esses royalties no Brasil de taxa tecnológica. Nos EUA e no Canadá, onde a legislação de patentes de organismos vivos é draconiana em favor das empresas de biotecnologia, vários agricultores já foram condenados a pagar vultuosas indenizações a essas empresas, porque tiveram seus plantios contaminados por cultivos transgênicos, ainda que isso tenha ocorrido à sua revelia. Uma das invenções mais perversas para garantir a propriedade privada sobre o material genético das plantas foi o desenvolvimento das tecnologias de uso de restrição genética, as GURTs8, que controlam as etapas de evolução da planta, modificando seu comportamento natural e exigindo a aplicação de substâncias químicas, nos casos em que se queira que a planta siga o que seria o seu caminho biológico natural. O exemplo mais famoso dessas tecnologias é o terminator, tecnologia patenteada pela Monsanto no fim da década de 90, e que faz com que as sementes de plantas transgênicas sejam estéreis, forçando o produtor rural a comprá- las novamente junto à empresa9. Com a questão do patenteamento, portanto, começam as semelhanças que podemos traçar entre o desenvolvimento da informática e o desenvolvimento de transgênicos por empresas privadas. Em um caso e no outro, trata-se da mesma estratégia. Conhecimentos que antes foram desenvolvidos de forma coletiva e pública são apropriados e passam a ser privatizados. Supõe-se, hoje, que a agricultura possa ter começado há mais de 7 mil anos atrás. Seu surgimento pressupunha já um profundo conhecimento das plantas, pois a sua domesticação inicia-se bem antes da própria agricultura. Os povos coletores e caçadores identificavam as árvores cujos frutos eram mais doces ou maiores, por exemplo, e buscavam- nas à época em que frutificavam. Suas sementes atiradas nas clareiras habitadas, cresciam melhor e essa ajuda humana fazia com que aos poucos tais variedades mais doces, ou mais suculentas, ou mais fáceis de serem extraídas se desenvolvessem, acentuando-se cada vez essas suas propriedades. A agricultura só foi possível, portanto, devido a um enorme conhecimento acumulado pelos primeiros povos coletores e caçadores. E, por sua vez, toda a agricultura moderna, toda a ciência agronômica repousa nos conhecimentos e nas tecnologias milenares desenvolvidas por povos em todos os quadrantes do planeta. Todos os cultivos e técnicas de fabricação ou conservação de alimentos – dos cereais ao vinho, das frutas à cerveja, queijos e fibras – são biotecnologia, e biotecnologias eficientes e seguras para o meio ambiente, para a saúde humana e animal, pois foram testadas por milhares de anos de práticas agrícolas, de cuidadosa observação, experimentação e preservação dos conhecimentos de geração para geração (DIAMOND, 2001; SHIVA,2003). No entanto, não é isso o que pensam nossos modernos biotecnólogos e as empresas que financiam suas pesquisas. Para eles, os conhecimentos dos povos indígenas e de comunidades tradicionais pertencem a uma fase primitiva do conhecimento humano, que sequer mereceria o nome de ciência. Bem, não absolutamente! Para alguma coisa eles servem… Por exemplo, para identificar certas propriedades medicinais em plantas ou animais, cujos princípios ativos possam então ser isolados para servirem de base para medicamentos que serão, então, patenteados! Mesmo o milho, a soja ou a canola transgênicos precisaram inicialmente de variedades de milho, soja ou canola convencionais, que há alguns milênios atrás foram domesticadas por povos agricultores a partir de plantas ancestrais, pouco utilizáveis como alimentos. E, embora a transgenia acrescente apenas alguns genes ao DNA de uma planta, para as empresas de biotecnologia isso é o suficiente para torná-las sua propriedades privada, enquanto a planta inteira, que serviu de base para suas experiências é considerada como um dom da natureza ou uma contribuição negligenciável de povos primitivos, e que por isso mesmo, deveria continuar sendo propriedade comum, pertencendo a todos.

As últimas fronteiras
Talvez uma das características mais fortes do neoliberalismo seja a tentativa de se apropriar como material privatizável e mercantilizável tudo aquilo que até recentemente era considerado como bem público: previdência social, ciência, recursos hídricos, genéticos, informações de qualquer tipo (PORTO-GONÇALVES, 2006; SANTOS, 2002). Em um artigo que já se tornou um clássico da literatura militante moderna, Vandana Shiva, a grande lutadora indiana, comparou essa privatização dos conhecimentos ligados à genética com a apropriação privada das florestas, pastos e várzeas de utilização comum, no fim da Idade Média inglesa, que conhecemos na História Geral pelo nome do “cercamento dos campos”. Aldeias inteiras perderam o direito de se utilizarem dos bosques para catar lenha, caçar ou colher frutos, e dos pastos para levar seus animais para pastar. Proprietários rurais que trocavam o cultivo de cereais pela criação de carneiros, expulsavam seus camponeses, e cercavam suas terras. Os milhares de expulsos dos campos ingleses vagavam sem rumo, esmolando nas cidades e sendo presos, marcados com ferro em brasa e obrigados a trabalhar para o nascente capitalismo, em minas e outros trabalhos insalubres. Assim surgiu, como mostra Marx no Capital, em seu 24º capítulo sobre a acumulação originária, o capitalismo. De um lado trabalhadores sem terras, obrigados a aceitar qualquer trabalho, de outro os capitalistas, monopolizando os meios de produção: terra, instrumentos, capital. Não seria diferente o que poderia ocorrer agora com os alimentos, e já ocorre em grande parte com remédios. Por meio da legislação que concede propriedade intelectual sobre descobertas científicas, alimentos e remédios são monopolizados por empresas que os colocam ou não no mercado, com o preço que considerem adequado, segundo suas conveniências. A questão dos altos preços sobre os remédios para o tratamento contra a AIDS em países do 3º Mundo está aí para ilustrar a tragédia que significa bens de primeira necessidade como remédios, se tornarem uma mercadoria como outra qualquer. É importante observar que não se trata apenas de controlar os corpos, nos moldes de uma biopolítica adotada pelos Estados modernos e analisada por Foucault (1977, 1981), quando aqueles Estados emergentes passaram a considerar sua população não só como súditos de um ponto de vista político, mas como corpos a serem controlados, administrados e utilizados em seu proveito, como soldados, trabalhadores ou mesmo contribuintes. Trata-se, aqui e agora, de um avanço sobre novas fronteiras – as do conhecimento – e com um novo objetivo: apropriar-se deste conhecimento sobre nossos corpos, sobre a natureza e sobre a nossa mente visando não apenas nos controlar, mas transformar tais conhecimentos em mercadorias, para depois revendê-los aos seus antigos proprietários – nós mesmos – caso, evidentemente, tenhamos poder aquisitivo para tal. Pois não se trata de outra coisa do que quando a indústria farmacêutica desenvolve medicamentos à base de conhecimentos obtidos juntos a comunidades tradicionais, para depois, vendê-los a preços proibitivos (RIFKIN, 1998). Os prejuízos dessa mercantilização dos conhecimentos já repercutem também no ambiente acadêmico. O próprio desenvolvimento da ciência se tem visto barrado nos últimos tempos pelo segredo industrial, pois, presos a contratos de sigilo com os grandes laboratórios e empresas, os cientistas já não mais podem compartilhar os resultados de suas pesquisas, nem as suas principais linhas de pesquisa em seus congressos científicos e nas salas de aula. Cada pesquisador de ponta em biotecnologia entende-se agora como um pequeno empresário que negocia “parcerias” com empresas, universidades e laboratórios. Seus colegas não são mais colegas, e sim concorrentes e apenas se pesquisa aquilo que promete retorno econômico de curto prazo.
Os riscos para a segurança alimentar são igualmente enormes. Teme- se que os transgênicos provoquem a perda de biodiversidade agrícola, desequilibrem os ecossistemas agrícolas, arruinem a agricultura familiar responsável por grande parte da produção dos nossos alimentos, signifiquem a perda de conhecimentos e práticas agrícolas milenares, seguras e insubstituíveis (MADELEY, 2003; RIECHMANN, 2000). Além disso, os transgênicos incluem todos os impactos negativos já trazidos pelas monoculturas da Revolução Verde: empobrecimento da diversidade agrícola, poluição de solo, água e alimentos com agrotóxicos, erosão e esgotamento de solos pelas práticas de monocultura, aragem e outros tantos. Caso a agricultura tradicional e as práticas agroecológicas forem inviabilizadas pelos transgênicos, estaremos de fato condenados a comer nas mãos das corporações de biotecnologia, isso é, se tivermos dinheiro para tal. Senão, talvez comamos uma espécie de ração incrementada de vitaminas e proteínas, feitas para pobres e pagas a preço de ouro pelos países do 3ª Mundo, a título de política compensatória para os excessos de perversão do neoliberalismo.

Software livre e brasil livre de transgênicos
Transgênicos, portanto, têm muita coisa a ver com o software, assim como o movimento do Software Livre tem tudo a ver com a luta por uma agricultura e alimentos livres de transgênicos. O adjetivo Livre em ambos movimentos significa a mesma coisa, ou seja, o esforço para impedir que o conhecimento produzido coletivamente, quer em informática, quer sobre a natureza, seja apropriado privadamente e utilizado em proveito de umas poucas empresas, com prejuízos para o conjunto da sociedade. Ao lutar contra essa privatização e mercantilização do conhecimento, ambos os movimentos resgatam, protegem, desenvolvem e disseminam os conhecimentos coletivos de forma coletiva e para a coletividade, fortalecendo modos de vida solidários, democráticos e sustentáveis de se viver, produzir e consumir.
Notas
1 O livro O futuro roubado de Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers (2002) relata os tortuosos e demorados caminhos através dos quais aos poucos a ciência foi se dando conta dos danos à saúde humana e animal causados pelos diversos compostos organo-clorados.
2 O filme Césio 137 de Roberto Pires é um assustador relato sobre o acidente com a bomba de colbato jogada em um ferro velho de Goiânia. Mais assustador ainda é tomar conhecimento de que mais de 20 anos após o acidente, grande parte de suas vítimas continua sem receber a assistência adequada por parte dos órgãos públicos.
3 Há diversas metodologias para avaliação de impactos ambientais, de saúde e na sociedade em um contexto de incertezas científicas. Uma das mais interessantes é a metodologia para avaliação de riscos ambientais de organismos geneticamente modificados desenvolvida pelo GMO ERA Project, uma rede reunindo cientistas do setor público de mais de 116 países.
4 Para um registro completo de contaminações com transgênicos, ver o GM Contamination Register serviço mantido pela Greenpeace Internacional e a Gene Watch UK, responsável por publicar relatórios anuais sobre contaminação com transgênicos em todo o mundo. http://www.gmcontaminationregister.org
5 No dia 12 de dezembro de 2007, realizou-se uma Audiência Pública no Congresso para analisar a denúncia do governo do Paraná de que sementes de soja convencional estavam contaminadas com soja transgênica. Ver edição especial do Boletim Por um Brasil Livre de Transgênicos com os casos de contaminação do Paraná. http://www.aspta.org.br/por-um-brasil-livre-de- transgênicos/coexistência impossível
6 São muitos os analistas da controvérsia em relação aos transgênicos que apontam o evidente déficit de pesquisa científica sobre os seus prováveis impactos negatiovs. De recente publicação no Brasil, recomendamos o livro de Hugh Lacey, A controvérsia sobre os transgênicos: questões científicas e éticas, 2006 e o artigo do professor Laymert Garcia dos Santos, Os biotecnólogos brasileiros em face da sócio e da biodiversidade, publicado na revista Novos Estudos Cebrap, julho, n. 78.
7 A mais importante legislação internacional permitindo patenteamento de plantas e animais é o TRIPS, sigla em inglês para Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio, acordo negociado e aprovado entre os países membros da Organização Mundial do Comércio.
8 Sigla em inglês para tecnologias genéticas de restrição de uso.
9 Para maiores informações sobre as tecnologias terminator consultar o site da campanha Ban Termitor. Campanha que reúne diversas organizações não- governamentais e movimentos sociais em todo o planeta. http://www.banterminator.org

Referências
BECK, Ulrich. Ecological politics in an age of risk. London: Sage Publications, 1986.
COLBORN, Theo; DUMANOSKI, Dianne;MYERS, John Peterson. O futuro roubado. Porto Alegre: L&PM, 2002.
DIAMOND, Jared M. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record, 2001.
FOUCALT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1981
______. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1977.
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
MADELEY, John. O comércio da fome. Petrópolis: Vozes, 2003.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982.
PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
RAFFENSPERGER, Carolyn;
TICKNER, Joel (Ed.). Protecting public health & the environment : implementing the precautionary principle. Washington D.C.: Island Press, 1999.
RIECHMANN, Jorge. Cultivos e alimentos transgênicos: um guia crítico. Petrópolis: Vozes, 2000.
RIFKIN, Jeremy. O século da biotecnologia. São Paulo: Makron Books, 1998.
SHIVA, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia. São Paulo: Gaia, 2003
SANTOS, Boaventura de Sousa. A globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2002.
VARELLA, Marcelo Dias; PLATIAU, Ana Flávia Barros (Org.). Princípio da precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004.

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