Sobre América Latina – 2008

Nuestra América Latina

Onda de mudança

Crise econômica nos países da América Latina elege presidentes que se projetaram com um discurso pela inclusão social

No dia 22 de janeiro deste ano, o socialista indígena Evo Morales recebeu a faixa presidencial da República da Bolívia para um mandato de cinco anos, prometendo “refundar o país”. Representando 62,2% da população formada de aimarás, quéchuas e guaranis, Morales é a maior novidade na América Latina, desde a eleição do polêmico Hugo Chávez para presidente da Venezuela, em 1998.

E o terceiro milênio começou com a promessa de uma ruptura de velhos conceitos político-sociais no continente. Em 2002, o ex-sindicalista Luís Inácio Lula da Silva elegeu-se presidente do Brasil, e outras surpresas passaram a ser menos raras com a vitória de lideranças que se projetaram em cima de um discurso de contestação ao modelo vigente da década de 90. Também fazem parte desse grupo, a recém-empossada presidente do Chile, Michelle Bachelet, Néstor Kirchner, presidente da Argentina, e Tabaré Vázquez, do Uruguai.

Segundo o especialista Paulo Maldos, assessor político do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), depois da onda azul neoliberal, chegou a onda vermelha. Ele explica que com o fim das ditaduras militares, houve uma disputa de projeto entre os setores de esquerda e os setores conservadores, aliados a ex-esquerdistas, que apostaram no neoliberalismo. “A partir do Consenso de Washington, ganharam terreno aqueles que propuseram uma linha voltada para a privatização radical, o estado mínimo, a terceirização, a competição social e entre empresas, a abertura de mercados e a redução de direitos sociais”, diz.

Segundo ele, a agenda neoliberal, apoiada maciçamente pela mídia e defendida por quem patrocinou a ditadura militar, os setores de centro, inclusive setores de esquerda arrependidos, foi vitoriosa. Tinha chegado a era de Carlos Menem, na Argentina, Carlos Salinas de Gortari, no México, Alberto Fujimori, no Peru, e Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, no Brasil.

 

O professor do Departamento de Sociologia da PUC/SP, Félix Sanchez, identifica como propulsor da ruína do império neoliberal o “descalabro econômico-social”. “A crise alcançou amplos setores da população”, diz. Para ele, a falsa sensação de melhoria em alguns bolsões não foi suficiente para acobertar a precarização vivida pela maioria.

“Mesmo no Chile, que vivenciou um bem sucedido processo de privatização e onde o desenvolvimento econômico foi muito superior ao dos demais países latino-americanos, o povo pagou um alto preço da globalização com a perda de direitos importantes, como a seguridade social”, exemplifica. “Dominados pelo fantasma do desemprego e pelo medo de perder qualidade de vida, a população decidiu apostar numa proposta alternativa”, diz Félix Sanchez.

O cientista político e psicólogo Paulo Maldos também atribui a queda do discurso neoliberal ao aprofundamento da miséria, ao aumento das dívidas, ao agravamento da exclusão social, atingindo frontalmente as classes médias. “A eleição de representantes da esquerda é uma espécie de tréplica. Os povos latino-americanos decidiram dar uma chance a um discurso que eles nunca tinham experimentado”, explica. Maldos observa, porém, que a onda vermelha tem uma tintura reciclada, menos carmim. “A carta ao povo brasileiro que Lula escreveu foi, na verdade, dirigida aos empresários temerosos de mudanças”, avalia. O professor de Sociologia da PUC reforça: “No caso do Brasil, Lula cometeu um tremendo estelionato eleitoral ao manter a política neoliberal contra a qual alimentou, por anos, um discurso crítico.”

Na Argentina, por exemplo, Néstor Kirchner entrou em sintonia com os setores radicalizados numa sociedade que estava no fundo do poço. No caso de Michelle Bachelet do Chile, a situação é outra. “Apesar de o pai, general de confiança do Salvador Allende, ter sido assassinado por Augusto Pinochet e de ela e a mãe, torturadas e exiladas no Leste Europeu, Michelle escolheu percorrer uma trajetória institucional, procurando não tocar nas feridas do passado para manter a convivência com ex-inimigos. Sua proposta é de avançar na redemocratização, na participação de gênero, ter mulheres no ministério, com uma agenda mais progressista”, afirma Maldos.

Ele destaca a Venezuela com o atrevimento de Hugo Chávez de “peitar o imperialismo norte-americano”. “Chávez está à frente de todos. Ele procura costurar com todos os emergentes do continente uma proposta nova, um banco da América do Sul, uma Petrosul. Tenta construir um projeto de âmbito latino-americano para se contrapor ao poderio acachapante da Nafta (Estados Unidos, México e Canadá)”, diz.

O presidente da Bolívia sairia do script. “Evo Morales é produto de uma crise extremamente aguda, após uma sucessão de presidentes defenestrados, de movimentos sociais de campo extremamente organizados, mobilizados, radicalizados e com capacidade de cobrança muito forte. Apesar de segurar a bandeira clássica da esquerda, ele dá sinais de que pretende adaptar as antigas reivindicações populares a propostas atuais, escutando todos os setores. Mas sua política vai no sentido de avançar no processo de participação política, na defesa dos camponeses, de não aceitar a intervenção norte-americana”, avalia Paulo Maldos.

Félix Sanchez classifica os presidentes em três níveis: Lula no Brasil, Vázquez no Uruguai e Michelle no Chile estariam mais próximos da prática neoliberal. No nível intermediário, encontrar-se-ia a verve mais populista de Kirchner da Argentina. E na ala esquerda, Chávez da Venezuela e Morales da Bolívia.

Para Paulo Maldos, apesar dessas diferenças, há algo que os converge: a preocupação com a inclusão social, com o fortalecimento do Estado e com a capacidade do Estado em alavancar políticas públicas. Ele acredita que os representantes dos movimentos sociais que chegaram ao poder têm ainda muito fôlego. Mas observa que à sombra do novo modelo de governo, que se desenha na América Latina, estão os porta-vozes de corte fascista. Para Paulo Maldos, se essa nova esquerda falhar, esse vácuo poderá ser ocupado por um setor radical, mais à direita.

Já Félix Sanchez considera que a sobrevida dessas lideranças deve-se menos a medidas transformadoras produzidas por elas e mais ao fato de a política neoliberal ainda provocar estragos no continente. “Só a busca por qualidade de vida na sociedade latino-americana ainda alimenta a continuidade dessa onda de mudança”, acredita.


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